Roma, 01.02.2026 – por Padre Robson Caramano.
A notícia divulgada hoje, 1º de Fevereiro, pela imprensa italiana — em particular pelo Avvenire — de que Alberto Ravagnani, aos 32 anos, decidiu suspender o exercício do ministério presbiteral, após oito anos de ordenação e estando à frente da paróquia de San Gottardo al Corso, provocou não apenas surpresa, mas uma necessária reflexão eclesial mais profunda. Não se trata de curiosidade midiática nem de juízo moral sobre uma decisão pessoal; trata-se de interrogar os critérios, os meios e os fins da missão presbiteral no contexto cultural contemporâneo.
A Igreja sempre viveu a tensão expressa na fórmula evangélica: estar no mundo sem ser do mundo (Cf. Jo 17,1-26). Padre Alberto, desde a pandemia do COVID-19, ganhou ascensão nas redes sociais que hoje acumula mais de 280 mil seguidores. Sua atuação se justificava pela necessidade pastoral. E de muito se é sabido: o que verdadeiramente aproxima as pessoas, sobretudo os jovens, da Igreja e de Jesus Cristo não é a performance comunicacional do evangelizador, mas a sua autenticidade e a sua fidelidade à missão recebida. A autoridade espiritual não pode nascer da visibilidade, mas sim da coerência; não se constrói por métricas, mas pelo testemunho.
Nesse horizonte, é preciso afirmar com clareza: a comunidade virtual não é a comunidade do convívio fraterno. Bem por isso, as redes sociais podem ser instrumentos úteis, meios auxiliares, jamais o fim da ação pastoral. Elas não substituem o encontro, a escuta, o tempo gratuito partilhado, o silêncio respeitado, a presença real que sustenta a vida sacramental e comunitária. Quando o meio começa a ocupar o lugar do fim, algo essencial se perde.
A experiência de reflexão acadêmica sobre comunicação e autoridade [particularmente no contexto das redes sociais] revela um dado incontornável: a lógica das plataformas digitais não é neutra. Elas operam segundo dinâmicas próprias de mercado, visibilidade, engajamento e consumo simbólico. Falar de “missionariedade digital” exige, portanto, grande discernimento crítico. Pode-se anunciar o Evangelho em ambientes digitais? Sim. Mas é legítimo chamar isso de pastoral quando a estrutura que sustenta esses espaços é orientada primordialmente pelo interesse em monetização da atenção? A tensão é real e não pode ser romantizada.
O risco maior não é o uso das redes, mas a sua absolutização. Quando o tempo dedicado ao mundo virtual começa a suplantar o tempo da vida fraterna [o estar com os amigos, o viver o momento sem a necessidade de registrá-lo, o acompanhar processos humanos concretos] algo do seguimento cristão já se fragilizou. A vida cristã não pode ser reduzida a um recorte estético de rede social. Ela é caminho, é permanência, é fidelidade quotidiana àquela palavra exigente do Evangelho: “Tome a sua cruz e siga-me” (Lc. 9,13); ou ainda aquele “vinde e vede…” (Jo. 1,39).
Instagram e TikTok não podem sustentar o ministério de ninguém. Nenhum presbítero [e eu faço minha autoanálise neste momento] é chamado a ser parâmetro de si mesmo. O critério da vida cristã é Cristo, não a individualidade — por mais carismática que seja — de seus ministros. Quando a centralidade se desloca da referência a Jesus para a construção de uma identidade pessoal mediada pela visibilidade digital, a própria estrutura do ministério se desfigura.
Por isso, a decisão de suspender o ministério, ainda que pessoal, tem repercussões comunitárias profundas. Não se trata apenas de um itinerário individual, mas de um vínculo que envolve a Igreja como corpo. Nesse sentido, é particularmente importante e doloroso o texto publicado pelo amigo de Ravagnani, o padre Marco Ferrari, que exprime não julgamento, mas sofrimento e consciência eclesial. No próximo dia 10 de fevereiro Ravagnani lançará seu livro: “A escolha“, parafraseando o desabafo pessoal que o amigo faz nas páginas de uma autobiografia, don Ferrari, escreve este texto que está abaixo, e deixo como reflexão para um tema tão atual e que carece de debate da vida eclesial e na base da Formação Inicial, tanto quanto, na Permanente:
A escolha
A bem da verdade,
não é jamais apenas autodeterminação,
mas envolve,
em círculos concêntricos,
todos aqueles que estão ao teu redor.E não posso não sofrer
por um amigo que deixa o ministério,
e não posso e não quero
calar
a dor por uma escolha
não tanto porque eu não a compartilhe,
mas porque não tenho a possibilidade de acolhê-la
e devo suportá-la
como um peso enorme.Somos amigos de uma vida inteira,
praticamente,
entre altos e baixos.Mas não,
eu não soube antes dos outros,
não soube com aquela delicadeza
que se reserva aos amigos.Cantávamos —
e cantamos
várias vezes,
no carro,
esta canção —
“Cabe a ti a escolha de quem serás,
cabe a ti a escolha de onde irás,
gritaste contra mim
que queres a liberdade,
que sabes tu como e quando
ela te será necessária”.…
Eu não presumia um envolvimento,
mas esperava sinceramente
que não escolhesses sozinho.Eu, nós Igreja,
sempre estivemos
por ti,
ainda que nem sempre
tenhamos sido hóspedes desejados
na tua vida.Batemos várias vezes
à porta do teu coração inquieto,
mas nada.Não posso parar para pensar
se fiz o suficiente por ti,
porque isso seria injusto
com o tempo,
com a oração,
com as tentativas
realizadas para te encontrar.Apenas,
por favor,
nunca digas
que nós te abandonamos,
porque te procuramos
sem cessar,
mas jamais conseguimos entrar.Assim como confias
às páginas de um livro
as confidências mais queridas,
agora eu confio
a estas linhas digitais
aquilo que ainda não tive
a possibilidade de te dizer
pessoalmente.
Confira o texto original de padre Marco Ferrai – clique aqui